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E de outros lugares... um futuro próximo e um futuro longínquo..

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 18.02.09

John Silva, o nosso luso-descendente que viaja num Simulador e se interessou pela nossa época, vá-se lá saber porquê, alertou-me para este fenómeno: estarei já a sofrer de uma forma de dependência, a PBA (political blog addiction). Penso que foi esta a designação que lhe deu, avisando ainda que se está já a generalizar em muitos viajantes da blogosfera.

 

Aceitei o conselho, até porque reconheço que isto de visitar diariamente blogues políticos (que abordam temas relacionados com: política, economia, sociologia, história, etc.), é verdadeiramente viciante.

Tenho, pois, de mudar o roteiro das minhas viagens blogosféricas e de me desviar para outros temas como, por exemplo: a arte nas suas diversas expressões.

O que não quer dizer que não continue a espreitar, à vez à vez.

 

Hoje, aqui vão duas perspectivas de futuro no país:

 

Uma, de um futuro próximo:

http://corta-fitas.blogs.sapo.pt/2856209.html

 

E outra,  de um futuro longínquo:

http://tempoquepassa.blogspot.com/2009/02/um-pouco-de-metapolitica-em-dia-de.html

 

 

publicado às 17:24

A evangelização do laicismo militante em curso

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.02.09

Bem, o Papa quando aterrar em Lisboa vai encontrar um país bem alterado! Alterado, em primeiro lugar, no sentido de diferente: a lutar pela simples sobrevivência, em que o cidadão, o mesmo que teve de pedalar para manter as contas públicas, está agora entregue a si próprio. E alterado, no sentido mais prosaico do mesmo: com os nervos à flor da pele!
É que em vez da serenidade, da sensatez, da responsabilidade, vemos uma evangelização do laicismo militante em curso! Valores serão derrubados, um a um, e da forma mais manhosa que tivermos à mão. Que isso custe energias e tempo que deveriam ser gastos nas áreas fundamentais, tentar sobreviver a esta crise financeira e recuperar a economia do país, isso não interessa para nada.
E o Presidente?, perguntou-me o John Silva, o nosso luso-descendente que viaja num Simulador, e que já perdeu o fio à meada.
Bem, o Presidente mantém um sorriso seráfico como se nada de muito errado estivesse a acontecer ao país que representa. Apenas se preocupa com a sua reeleição. Esta é a verdadeira dimensão da mediocridade desta República, que conseguiu produzir o Estado Novo, o gonçalvismo, o cavaquismo, o guterrismo e isto...
Isto?,
perguntou-me John Silva.
Sim, isto... Nem sei que designação histórica lhe atribuir...
John Silva resolveu mudar de assunto ao ver-me tão alterada: Nos States as coisas também não estão nada bem. Pessoas a ser expulsas das suas casas, daquelas que não conseguiram acabar de pagar, é triste.
Abri muito os olhos ao ler a palavra triste na mensagem enviada pelo Simulador. E a mensagem continuava: a falta de sabedoria é o que caracteriza a vossa época, sabias? A lack of wisdom... Enfiar dinheiro nos bancos, daquela maneira, para tapar buracos sem fundo... e nas companhias de automóveis... E as pessoas a sair à força das suas casas. Enfim, a sabedoria é um bem muito raro na vossa época.
Por respeito pela minha agitação, John Silva não se referiu ao nosso país. Apenas deixou no ar uma antecipação do que aí viria: É necessária uma renovação. O vosso sistema já deu o que tinha a dar. Não tem nada de positivo a propor, não consegue animar e mobilizar os cidadãos. Depois de uma fase conflituosa, uma fase de transição, muita coisa vai mudar. Vai começar por movimentos de cidadãos. A pôr os pontos nos is, as prioridades no sítio correcto, a exigir que as instituições funcionem. Muitas queixas seguirão para a UE e para outras instâncias... E isto ainda virá a tempo de se evitar um totalitarismo qualquer. A democracia ainda se conseguirá refazer.
Seria para me consolar? Tudo era possível. Guardei todas as mensagens do John Silva e esta com mais carinho ainda. Na sua época remota a palavra triste já não é utilizada. E no entanto... aplicou-a de forma empática: ficou triste como as pessoas que tiveram de sair das suas casas. Também este gesto generoso de me tentar consolar deixou-me verdadeiramente comovida.
Sim, esta República já deu o que tinha a dar. Produziu tudo aquilo que referi ao John Silva... até isto. Como definir isto? Não sei... Eu diria: a evangelização do laicismo militante em curso. E que valores propõe para substituir os actuais? Os valores da morte: aborto, eutanásia... Pois não é de morte que se está a falar quando se fala de aborto e de eutanásia? O esfarelar e destruir das instituições-base como o casamento e a família. Em nome de uma igualdade que mais não é do que uma imposição, uma forma de fundamentalismo. Igualdade não é invadir o que já existe e destruí-lo. Igualdade é criar alternativas adequadas.
E o que mais se prepara por aí...
E não foi só o PS e o seu governo que deixou o país à beira de uma ruptura financeira, económica, social e moral! Foi o Presidente também, com a sua cooperação estratégica, o seu silêncio perante o inadmissível e o seu sorriso perante um país numa situação caótica.

 

publicado às 10:12

A capacidade humana, paradoxal, de boicotar os seus próprios objectivos

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 16.02.09

Provavelmente já todos nós boicotámos alguma vez os nossos próprios objectivos. Em vez de utilizarmos a estratégia correcta, acabámos por avançar pelo percurso errado. E isto acontece em relação a aquisições, situações, relacionamentos, etc.

Pois é precisamente este fenómeno que me parece estar a ocorrer nesta recente proposta do "casamento de pessoas do mesmo sexo". O paradoxo começou logo nesta estranha fórmula que inclui "casamento" e "mesmo sexo". O primeiro erro está aqui.

Tenho resistido a falar sobre um assunto que considero não me dizer respeito. Como cidadã, apenas me cabe defender a universalidade dos direitos e deveres, o que inclui as diversas minorias. A partir daí, não devo interferir na vida de quem se organiza de forma diversa.

Podem contar com a minha solidariedade, enquanto cidadã, na defesa da igualdade do direito de todos se realizarem plenamente, mas a partir daí não devo opinar sobre aquilo que lhes diz respeito.

É por isso que considero um erro que este debate - que devia ser tratado com outra inteligência, maturidade, sensatez e dignidade -, possa vir a encaminhar-se para um referendo. Colocar-se a vida afectiva, privada, de uma minoria, nas mãos de uma maioria? E qual a necessidade de aprovação da maioria? Não têm todos os indivíduos de uma dada sociedade, que se pretende democrática, o mesmo direito de se realizarem de forma plena em todas as áreas da sua vida?

E logo uma maioria em que se observa ainda o preconceito em relação ao diferente? É só pensar nas inúmeras dificuldades que este grupo tem vivido, na escola, na universidade, no local de trabalho... É só ver os documentários e as reportagens que têm abordado este assunto. Sobretudo o grupo mais vulnerável, os adolescentes.

Este tema deve ser tratado, a meu ver, com imenso respeito e numa perspectiva pedagógica, refiro-me ao grande grupo. Mas não da forma folclórica e superficial que temos visto recentemente.

De referir ainda um outro erro estratégico: apresentar a sua pretensão legítima de forma politizada, como se fosse uma bandeira do BE e dos Verdes. Porque se deixam assim utilizar? Em breve vai ser pelo PS, o mesmo que lhes recusou a mínima atenção e consideração.

O timing também jogou contra esta proposta: em plena crise financeira e económica, com o país à beira da ruptura social, as sensibilidades fecharam-se a temas como o seu.

Mas o erro maior, a meu ver, foi mesmo a sua insistência na designação "casamento" para um contrato que contemple os direitos equivalentes. Porquê "casamento"? Se não é igual ao casamento, porque insistir em torná-lo uma variante de uma categoria que, na sua natureza, não cabe nela? Casamento é uma instituição de séculos, com as suas normas e regras bem definidas. Porque não criar uma nova, que garanta os mesmos direitos? É falta de criatividade, no mínimo, não acham? Outro paradoxo: quando o casamento, enquanto instituição, está a perder influência, qual o sentido de insistir na tecla?  (1)

Bem, para quem não gosta de se meter onde não é chamado (até porque não sou jurista), já estiquei bastante o assunto.

É que hoje à noite o tema vai ser debatido nestes termos pelo Prós e Contras, na Rtp1: quem é a favor? Quem está contra? Sim ou não ao casamento homossexual? 

Acham que isto é forma de debater um assunto que toca a vida de muitas pessoas, como querem organizar os seus afectos, como casal, família, a sua vida privada?

Não, não é. Esta é mais uma das atitudes culturais folclóricas da sociedade-espectáculo. Nem se deve colocar esta questão entre quem é a favor e quem é contra. Como se um direito consagrado na Constituição fosse passível de aprovação da maioria... no way! 

Se me permitem uma sugestão: voltem ao início, coloquem a vossa pretensão legítima de outra forma, com outra designação, e optem por uma estratégia adequada à dignidade social do tema. Vejam é se evitam ver a vossa vida em referendo. Desde quando é que um cidadão livre, adulto, tem de se submeter à aprovação da maioria, só porque  organiza os seus afectos, e a sua família, de forma diversa?

Finalmente, espero que consigam uma solução de compromisso e que o grande grupo não venha a opinar ou a decidir sobre a sua vida.

 

 

 

 

(1)  Entretanto, actualizei a minha posição relativamente a este tema. Ver a Nota final de esclarecimento neste post.

 

 

 

publicado às 15:32

A ficção histórica e a história da ficção

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 10.02.09

Pessoalmente, defendo uma clara distinção entre o período do Estado Novo com Salazar e a Primavera marcelista (68-74). Suponho que poucos partilham esta ideia e por isso um dia destes gostava de a sistematizar. Ainda não tive foi paciência para ler alguns livros e ensaios, mas lá terei de o fazer para fundamentar a minha tese: há uma clara diferença na essência, na natureza, na cultura e na dimensão. Marcello Caetano é um homem e um professor. Foi assim que o vi e ouvi nesses anos. Com os erros naturais de um homem, mas com uma rara inteligência e uma rara perspicácia. Sim, um dia destes desenvolverei aqui a minha visão dessa primavera anunciada mas interrompida.


Por agora, apenas referir este interesse pela personagem Salazar numa mini-série da Sic sobre “a sua vida privada”. E eu que desconhecia completamente essa faceta da personagem. A Salazar só associava aquele timbre de voz sibilante de velhinha e a entoação de pároco de aldeia. Era criança ainda, aí pelos 8, 9 anos, quando ouvia os seus discursos na televisão e tudo naquela voz, timbre e entoação, me soava a cínico e a hipócrita. Aquelas homilias insuportavelmente paternalistas! Ele não estava a falar para nós, era para si próprio.


Por isso, sinto uma certa dificuldade em entender este recente interesse pela personagem. E muito menos por tudo o que se assemelhe a “vida privada” de alguém com estas características. A não ser... que este interesse revele uma curiosidade natural por toda uma época, um interesse histórico e social mais amplo. Este post do “Cachimbo de Magritte” parece apontar para aí:


http://cachimbodemagritte.blogspot.com/2009/02/vida-privada-de-oliveira-salazar.html

 


Voltando à série, que me incomodou talvez pela vaga atmosfera fechada e doentia que apesar de tudo conseguiu captar: esta visão parcial do domínio do privado soa-me a ficção. A pronúncia era a correcta mas o timbre e a entoação não. Talvez não se possa exigir a um actor que coloque a voz em timbre de velhinha sibilante, mas a voz era um pormenor fundamental. A voz diz tudo de uma pessoa: tem uma cor própria, uma ressonância, uma temperatura. A de Salazar era seca e cinzenta, áspera naquela moinha e fria como uma maquineta avariada. Da próxima vez que fizerem uma série ou um filme sobre a personagem, espero que se lembrem de colar de vez em quando um breve excerto das suas homilias para multidões, para que o possam conhecer melhor, à sua influência política e ao país desse tempo.


Não há nada mais detestável do que o paternalismo político ou social ou económico ou cultural. E actualmente estamos a ver esse regresso histórico. Estejam atentos a essa tentação. É profundamente errada. Terá péssimos resultados. O caminho é completamente outro: aprender a autonomia. Aprender a comunicação, a interacção, a colaboração. Aprender a trabalhar em equipa, a trocar ideias, a desafiar-se mutuamente. Unidades mais pequenas e mais eficazes, células activas de um corpo ligado por fios invisíveis, fórmulas eficazes porque flexíveis, possíveis de corrigir e reformular. Esse é o desenho do futuro.


Salazar? Um egocêntrico que amava o poder e o controle acima de tudo. E eu que cheguei a pensar que era um homem religioso, um rato de sacristia. Pelos vistos, a sua religião era ele próprio e a ideia de ser uma espécie de salvador nacional.
Tudo o que aprendi depois sobre ele, como o triste episódio Aristides de Sousa Mendes, só me levou a detestá-lo mais e a tudo o que ele significa e representa na cultura portuguesa: pequenez, mesquinhez, inveja, ressentimento, controle absoluto, sadismo, o respeitinho, subserviência, conformismo, delação, etc. etc.
Sim, da próxima vez lembrem-se, please!, de introduzir excertos dessas homilias com a sua voz e todos ficarão a conhecê-lo melhor. O resto é ficção histórica ou história da ficção. Mas que conseguiram captar uma certa atmosfera doentia e bafienta, conseguiram.

 

 

publicado às 10:22

E de um outro lugar, um manual político muito antigo mas muito actual

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 09.02.09

Mais um manual político, desta vez muito antigo (mas muito actual), de um outro lugar:

 

http://tempoquepassa.blogspot.com/2009/02/neste-mostrador-das-horas-minguadas-com.html

 

Mais parece um texto poético ou uma peça teatral, sobretudo os dois primeiros parágrafos, onde se fala da Arte de Furtar e de um Espelho de Enganos, com um Mostrador das Horas Minguadas.

 

 

publicado às 17:28

Uma Política com valores

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 09.02.09

Uma Política com valores, como a verdade e a transparência, o respeito pelo cidadão-contribuinte, o sentido de comunidade e de bem comum, é a que permite restaurar a confiança no Estado e nas instituições-chave da democracia e a que melhor prepara o país para os novos desafios.
Uma Política para o séc. XXI que em vez de entender o poder como controle e domesticação, com uma tendência para intervir e condicionar, respeite a iniciativa e criatividade das comunidades e do país em geral, respeite o cidadão, esteja aberta à sua participação activa e dê espaço a decisões e escolhas, livres e responsáveis.
Por isso, a minha esperança está nas novas gerações. A abertura e receptividade à colaboração activa dos jovens, muitos deles talentosos em diversas áreas fundamentais (economia, gestão, política, sociologia, pedagogia, novas tecnologias, psicologia social, etc.); que debatem ideias, analisam e aprofundam; que não perdem tempo e energias com questões laterais e superficiais que condicionam actualmente qualquer intervenção; que estão habituados a trabalhar em equipa; que sabem organizar e concretizar projectos, com sentido de responsabilidade, avaliando o seu próprio trabalho em função dos resultados, a flexibilidade necessária para corrigir a rota e as estratégias e a maturidade para respeitar o interesse comum de uma comunidade e de um país.

Os recursos humanos são a maior riqueza de um país.
Ainda espero conseguir analisar aqui que o problema do país está mais ao nível da gestão dos recursos humanos, seja pública seja privada, do que nos recursos humanos propriamente ditos. Não admira que os melhores estejam a debandar para outros países.
Muito por fazer, não é?


publicado às 15:36

3. Como a Justiça é percebida pelos cidadãos como “coisa para ricos” e as instituições-chave da democracia perderam credibilidade.
A Educação (de que já falei) e a Justiça, juntas, formam o esqueleto da democracia e viabilizam a economia de um país: a Educação, porque prepara os recursos humanos; a Justiça, porque permite o equilíbrio nas relações entre cidadãos, empresas, instituições.
Sem estes dois pilares a funcionar de forma saudável, perde-se a eficácia das competências necessárias (recursos humanos) e a confiança no relacionamento entre indivíduos, empresas, instituições.
A Justiça hoje é percebida pelo cidadão comum como “coisa para ricos”, em que ganha uma causa quem pode pagar a um bom advogado. A Justiça é-lhe inacessível. Logo, está entregue a si próprio. Completamente indefeso. O cidadão comum já percebeu isso ao ver como alguns processos estão a decorrer. Isto é gravíssimo, numa altura do campeonato em que algumas empresas e organizações (o fisco, as petrolíferas, a banca, etc.), se estão a tornar prepotentes, agressivas e até invasivas dos direitos dos cidadãos para lhes “sacar” o que andaram a perder em operações duvidosas e especulações financeiras. Logo, teremos em breve a “lei da selva” por aí. Mais perverso ainda quando é o mesmo cidadão, que não tem acesso à Justiça, o que paga os seus serviços e estragos. Pior é impossível!
Quem se arrisca a investir num país em que a Justiça não funciona, a não ser para proteger irregularidades? E isto tem um efeito dominó para a Segurança também. E vive-versa. Este é o país onde se atacam pessoas dentro de uma esquadra de polícia e dentro de um tribunal. Este país está é a transformar-se no “paraíso dos malfeitores”. (Lembram-se daqueles jogos infantis em que havia um lugar protegido, em que o perseguidor não nos podia tocar? Um “santuário”? Pois bem, estamos perto de ser o “santuário” dos malfeitores internacionais). Vai uma apostinha?
Estamos actualmente numa situação crítica, muito frágil mesmo. Não é só a Economia, a Educação, a Justiça, a Segurança, é ainda a progressivaperda de credibilidade de instituições-chave numa democracia moderna e num estado de direito saudável.
Total descrédito: Banco de Portugal e Autoridade da Concorrência;
Alguma credibilidade (mas com tendência negativa): Assembleia da República e Procuradoria Geral da República;
Credível (mas com poucos meios para responder a tantas solicitações): Provedor de Justiça.
Está tudo interligado, como veremos. Este cenário lembra-me cada vez mais o Estado Novo. Só nos falta a Pide e a Guerra Colonial. É certo que no Estado Novo havia aquele “respeitinho” e subserviência q.b. Não se dizia alto o que se pensava baixinho. Mas fora a algazarra geral, a histeria colectiva, esses tubos de escape, temos todos os ingredientes: aumento das desigualdades sociais; corporativismo; favorecimentos; encobrir grandes irregularidades e perseguir os pequenos fora-da-lei; a delação; a prepotência; a arbitrariedade; etc. etc.
Estas formas obsoletas, incultas e provincianas de organização social não podem ser inscritas na designação “democracia”, a não ser num sentido muito lato do termo. Onde não se verifica uma concorrência saudável de mercado; onde as novas gerações não estão a ser preparadas para os desafios do séc XXI; onde não existem condições para garantir o equilíbrio no relacionamento entre indivíduos, empresas, instituições; onde a segurança de vidas e bens está constantemente em perigo; digam-me se este “salve-se quem puder” se inscreve na fórmula “democracia”. Não me parece.
Bem, ainda falta a Saúde, a Defesa, a Cultura e os Negócios Estrangeiros, não é?
Da Saúde gostaria apenas de referir este recente “quase convite” ao cidadão que mora no interior do país (esquecido por este governo), ali na zona da raia, a ir tratar-se a Espanha.
Da Defesa, não tenho acompanhado os últimos episódios.
Quanto à Cultura, acho que desapareceu. Só deu sinais de vida para falar do acordo ortográfico.
E parece que o ministério dos Negócios Estrangeiros é o que está com melhor imagem junto do cidadão. Será porque é sobre negócios estrangeiros?
E mesmo que o meu olhar seja sombrio (talvez porque exercito a memória e cultivo a observação atenta a pormenores), e que o que aqui digo seja exagerado, ou até injusto, este é o olhar do cidadão comum, pelo menos do que eu tenho captado. O que quer dizer que há a necessidade urgente de restaurar qualquer coisa de fundamental: a confiança no estado, nas instituições-chave, nas organizações, nas empresas, etc. Por alguma razão essa confiança está por um fio...
Quanto à viabilidade do país, viro-me para as novas gerações. Políticos sem personality issues, como: necessidade de afirmação pessoal; necessidade de protagonismo; ambição individual desmedida; egocentrismo e imaturidade; baixo limiar de resistência à frustração; visão do poder como poder pessoal; fracas aptidões sociais como a capacidade de empatia e de negociação; fraco sentido de responsabilidade; ausência de cultura comunitária e de bem comum; ausência de valores sociais; etc. etc.
Assim, o contrário disto forma o político para o séc. XXI. Abarcar todas as qualidades referidas seria o ideal, e ainda falta aqui o carisma, o entusiasmo, a visão de um caminho, a capacidade de animar e mobilizar grupos de trabalho, as raras capacidades de comunicação. Lembrar também que estas capacidades são percebidas pelo cidadão porque confia no político (atribui-lhe credibilidade) e essa confiança constrói-se, não surge do nada nem de uma operação de cosmética ou de marketing político.
Dou-vos apenas dois exemplos de algumas destas qualidades num político, e escolho propositadamente dois políticos portugueses presentes na nossa história recente mas infelizmente ausentes antes do seu tempo vital: Sá Carneiro e o General sem medo. Assim não serei mal interpretada nem injusta com os actuais políticos. Mas posso referir um inglês, que se aproxima deste modelo de novo político para o séc. XXI: David Cameron.

 

 

publicado às 11:35

Da Economia e do emprego passamos então para a Educação. Aqui tenho de dizer que o jornalismo caseiro esteve bem. Acompanhou a triste saga dos professores desde o início (e eu vou aqui lembrar o início). E além de acompanhar a saga, em notícias e em entrevistas, conseguiu Reportagens muito bem concebidas. É aqui que está um dos filões do jornalismo caseiro: são óptimos nas Reportagens!
Sim, o jornalismo caseiro esteve bem no tema Educação. Esteve muito melhor do que o comentário político doméstico, mas isso não é muito difícil. Vamos lá então à saga dos professores.

2. Como o governo desvirtuou e desmantelou a Escola Pública e como descaracterizou e esvaziou o papel do Professor.

Já viram alguma vez o filme de Alain Resnais O meu Tio da América? Pois bem, para compreenderem melhor a saga dos professores, desde que esta equipa iniciou a sua vassourada (como a bruxa d' O Feiticeiro de Oz), sugiro-vos este filme. Vamos lá então começar: Alain Resnais pega num determinado indivíduo (magnífico Gérard Dépardieu) que vai ser sujeito a diversas situações ansiógenas (isto é, que geram ansiedade) e, para analisar o seu comportamento (isto é, como vai lidar com as situações), faz um paralelismo interessantíssimo com os ratinhos de laboratório num “labirinto armadilhado”. Delicioso... Esta ideia de “labirinto armadilhado” vem mesmo a calhar porque exemplifica na perfeição as diversas situações ansiógenas a que os professores se viram sujeitos. Senão vejamos:
Como é que o nosso professor estava antes da vassourada ministerial? Lembram-se? A indisciplina escolar, turmas heterogéneas, violência nas escolas... só para nomear algumas das situações ansiógenas com que os professores tinham de lidar. Ora, por cima disto ainda lhe vai cair o seguinte:
1ª situação-impacto (choques eléctricos para o ratinho de laboratório, o que está metido no tal labirinto armadilhado): a desvalorização da violência escolar, pela ministra. Isso era um exagero do Procurador da República, estava tudo sob controle, as escolas estavam a lidar bem com a situação.
Como lidar com isto, qual a resposta dos professores? Apresentar queixa alivia temporariamente o stress, mas não resolve a situação: pais furiosos ou estragos no carro, etc. Muitos evitam apresentar queixa com receio de penalizações, como a tal culpabilização de não saber lidar com situações de conflito. E não apresentar queixa implica de imediato um aumento do nível do stress...
No caso do ratinho, ele vai aprendendo a escapar aos choques eléctricos como pode, get it? Comportamento de fuga, descoberta de uma saída, pelos corredores labirínticos. O nosso Gérard Dépardieu também lá vai ficando mais ansioso, à medida que as situações se complicam.
2ª situação-impacto (mais choques eléctricos para o ratinho): primeira desvalorização das funções pedagógicas do professor com as aulas de substituição, passando a ser também “guardador de crianças e jovens”. Esta forma de organizar os períodos escolares devia ser efectuada pelas próprias escolas, internamente, na tal so called filosofia da Autonomia Escolar que, como veremos, é pura ficção.
3ª situação-impacto (mais choques eléctricos): segunda desvalorização das funções pedagógicas do professor com a divisão administrativa da carreira docente em duas categorias: titular (o que tem títulos?) e professor propriamente dito. Isto já não é uma simples amolgadela, isto é mesmo uma machadada e nesta altura o nosso ratinho já está meio pelado de tanta descarga eléctrica!
Situação arbitrária e injusta, mas com a marca registada do PS: a) gosta de títulos (que pueril!), mas não baseados no mérito; b) decide de cima para baixo de forma unilateral e prepotente (mais ou menos como Israel na faixa de Gaza); c) é totalmente insensível e até indiferente à noção de justiça, impondo de forma arbitrária; d) mais grave ainda, gosta de pregar partidas: mudar as regras do jogo a meio do jogo e apanhar a vítima de surpresa; e) também gosta de cansar a vítima por exaustão, massacrando-a com normas, orientações e legislação ilegível; f) desconhece as regras básicas de gestão de recursos humanos.
Voltando à divisão arbitrária e administrativa da carreira docente: o que passa a valer é mesmo os “cargos de gestão” (os mais pontuados). Quem preferiu ensinar na sala de aula ficou assim desvalorizado na tal pontuação pueril... O mesmo é dizer que as suas funções específicas e mais nobres, as pedagógicas, são aqui desqualificadas.
Tal como o ratinho, muitos professores, já perto do final da carreira, optaram pelo comportamento de fuga e aproveitaram para pedir a reforma antecipada, saindo mesmo com penalização. Isto aliviou-lhes o stress e, muito provavelmente, aumentou-lhes em meses, e até anos, a sua esperança de vida!
Os outros, os que não puderam fugir, começaram a mobilizar-se, a unir-se, a trocar ideias e opiniões, a encontrar no grande grupo o apoio e coesão que já não encontram na sua escola, em que o ambiente de trabalho se começou a deteriorar. Nestas caminhadas de protesto o stress é aliviado momentaneamente. Caminhará pelas ruas de Lisboa. Exprimirá a sua indignação e defenderá a Escola Pública, o Ensino, o Estatuto e a carreira docente.
Mas o sistema tem meios kafkianos de se impor, como veremos, e um deles é dividir para reinar, outro é isolar para intimidar.
4ª situação-impacto (aqui o nosso ratinho já se sente electrocutado): completa desvalorização da carreira, estatuto e autoridade do professor, com a imposição, novamente arbitrária, incoerente, injusta e medíocre de um modelo de avaliação inclassificável. O professor é condicionado a manter e a alimentar a fantasia pueril de um sucesso escolar estatístico. Ora, isto não é apenas uma machadada na carreira docente e na especificidade das suas funções (as pedagógicas), é também uma machadada mortal na Escola Pública. Sim, este modelo de avaliação que lhe impõem é mais do que kafkiano, é mesmo draculiano! E mesmo que venham argumentar que o conseguiram simplificar, isso é ainda mais grave! Um modelo de avaliação tem de ter uma lógica, um equilíbrio e uma coesão internas que sirvam de forma exacta e fidedigna o que pretende fazer: avaliar de forma eficaz, justa e discriminativa o mérito profissional individual. Ora, mexer num modelo, que se pretende minimamente científico, só pode piorar as coisas. E se houve a necessidade de o simplificar, é porque não era viável.
E isto acompanhado por normas, sugestões, orientações, decretos-lei, praticamente incompreensíveis, com que os professores são bombardeados diariamente. Papelada e papelada. Pior é impossível!
Hoje temos uma Escola Pública que é uma sombra do que já foi. Agora os jovens de meios menos favorecidos perderam o acesso a uma escola de qualidade. De simplificação em simplificação, de programas medíocres e pouco estimulantes a exames cada vez mais fáceis, assim se vai programando sistematicamente uma geração de escravos. Podem falar em sucesso, mas o que aqui se passou é gravíssimo! Como se vão preparar as novas gerações para os novos desafios do séc. XXI? Mas como podemos perguntar isto a este PS pueril no poder? Ele nem sabe que está no séc. XXI... Viram na Economia? Ele deve andar por ali em meados do séc. XX. Vai uma apostinha?

 

publicado às 11:13


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